Quando uma criança recebe o diagnóstico de autismo, ou quando os pais começam a desconfiar dele, uma sigla aparece em quase toda conversa: ABA. A terapia ABA para autismo é uma das intervenções mais estudadas para crianças no espectro, mas também uma das que mais geram dúvidas. O que acontece nas sessões? Quantas horas são necessárias? Funciona mesmo? Neste texto, explicamos de forma clara o que é a ABA, o que as pesquisas de maior qualidade mostram e como saber se ela é indicada para o seu filho.
O que é a terapia ABA?
ABA é a sigla em inglês para Análise do Comportamento Aplicada. É uma ciência que estuda como as pessoas aprendem e como o ambiente influencia o comportamento. Na prática, o terapeuta observa o que a criança já faz, define objetivos importantes para a vida dela e ensina novas habilidades em pequenos passos, usando motivação e reforço positivo, ou seja, consequências agradáveis que tornam mais provável que a criança repita aquele comportamento.
Os objetivos costumam envolver áreas como:
- Comunicação: pedir o que quer, apontar, falar ou usar outros meios, como figuras.
- Interação social: olhar para o outro, esperar a vez, brincar junto.
- Autonomia: comer, se vestir, usar o banheiro, seguir rotinas.
- Comportamentos que trazem sofrimento ou riscos, como crises intensas, sempre buscando entender o que a criança está tentando comunicar com eles.
Como é uma sessão de ABA?
Muita gente imagina a ABA como uma criança sentada à mesa repetindo exercícios. Esse formato existe, mas as abordagens atuais são muito mais lúdicas. Boa parte do ensino acontece no chão, durante brincadeiras, aproveitando o interesse da própria criança: se ela adora carrinhos, o carrinho vira oportunidade para pedir, nomear cores ou dividir com o terapeuta. Essas abordagens são chamadas de intervenções naturalísticas.
Uma boa intervenção também envolve os pais. Eles aprendem estratégias para usar em casa, no mercado, na hora do banho, para que o que a criança aprende na clínica se mantenha no dia a dia. A evolução é medida com registros frequentes, o que permite ajustar o plano quando algo não está funcionando. Para entender a base dessa abordagem, leia também sobre terapia comportamental na infância.
O que as pesquisas mostram sobre a ABA?
A ABA tem décadas de estudos, mas é importante olhar para as pesquisas com cuidado. Veja os principais achados das revisões de maior qualidade:
- Revisão Cochrane: analisou a intervenção comportamental intensiva precoce, um modelo de ABA com muitas horas semanais para crianças pequenas. Em 5 estudos com 202 crianças, os grupos que receberam a intervenção tiveram, em média, cerca de 15 pontos a mais no QI e quase 10 pontos a mais em comportamento adaptativo, que são as habilidades práticas do dia a dia. A linguagem também melhorou. Os autores alertam que a qualidade da evidência é baixa, porque há poucos estudos randomizados, e que nenhum estudo relatou efeitos adversos (Reichow et al., 2018).
- Metanálise de 2023: reuniu 11 estudos com 632 crianças e encontrou efeitos moderados da ABA abrangente sobre o funcionamento intelectual e o comportamento adaptativo. Não houve diferença clara na linguagem, na intensidade dos sintomas do autismo nem no estresse dos pais em relação aos grupos de comparação (Eckes et al., 2023).
- Projeto AIM: uma grande metanálise com 130 amostras e mais de 6 mil crianças de 0 a 8 anos comparou diferentes tipos de intervenção. Quando foram considerados apenas os estudos randomizados, os efeitos positivos apareceram para as intervenções do desenvolvimento e para as naturalísticas, que combinam princípios da ABA com o brincar e a rotina da criança (Sandbank et al., 2019).
- Academia Americana de Pediatria: recomenda iniciar intervenções o quanto antes, mesmo antes do diagnóstico formal, e destaca que elas funcionam melhor quando são precoces, intensas e envolvem a família (Hyman et al., 2020).
Em resumo: há evidência de benefício, principalmente quando a intervenção começa cedo, é individualizada e inclui os pais. Ao mesmo tempo, nenhuma abordagem funciona igual para todas as crianças, e o acompanhamento precisa ser revisto com frequência.
Quantas horas de ABA meu filho precisa?
Não existe um número único. A quantidade de horas depende da idade, das necessidades, dos objetivos e da rotina da família, e deve ser definida após uma avaliação cuidadosa. Mais horas não significam, por si só, melhores resultados: a qualidade da intervenção, a participação dos pais e a adaptação à criança contam muito. Desconfie de pacotes prontos que prometem resultados garantidos.
Como escolher um bom serviço de ABA?
- A equipe faz uma avaliação inicial e explica os objetivos de forma clara.
- Os objetivos priorizam comunicação, autonomia e bem estar da criança.
- As sessões são acolhedoras e respeitam os sinais de desconforto da criança.
- Os pais recebem orientação e retornos frequentes sobre a evolução.
- Há trabalho em conjunto com fonoaudiologia e terapia ocupacional, quando necessário.
Quando procurar ajuda
Procure uma avaliação se você notar sinais como:
- Pouco contato visual ou pouca resposta ao ser chamado pelo nome a partir dos 12 meses.
- Não apontar para mostrar coisas aos 12 a 18 meses.
- Ausência de palavras aos 16 a 18 meses ou de frases de duas palavras aos 24 meses.
- Perda de palavras ou habilidades que a criança já tinha, em qualquer idade.
- Brincadeiras muito repetitivas, interesses muito restritos ou grande dificuldade com mudanças de rotina.
Não é preciso esperar o diagnóstico fechado para começar a estimular a criança. Veja também nosso texto sobre criança que não fala e não olha nos olhos e as perguntas frequentes sobre alterações do desenvolvimento. Se você procura um psicólogo infantil em Moema com experiência em ABA, nossa equipe pode ajudar.
Perguntas frequentes
A terapia ABA é só para crianças com autismo?
Não. A Análise do Comportamento Aplicada é usada principalmente no autismo, mas seus princípios também ajudam crianças com atrasos do desenvolvimento, dificuldades de comportamento, seletividade alimentar e outras demandas. O que define a indicação é a avaliação da criança e dos objetivos da família, e não apenas o diagnóstico.
Com que idade começar a terapia ABA?
Quanto mais cedo, melhor. A Academia Americana de Pediatria recomenda iniciar intervenções assim que houver suspeita, mesmo antes do diagnóstico formal, que pode ser feito a partir dos 18 meses. Crianças maiores e adolescentes também se beneficiam, com objetivos adaptados à idade, como habilidades sociais, autonomia e organização da rotina.
A terapia ABA funciona mesmo?
As revisões científicas mostram benefícios em habilidades intelectuais, comportamento adaptativo e linguagem em parte dos estudos, embora a qualidade da evidência ainda seja considerada baixa a moderada. Os melhores resultados aparecem quando a intervenção começa cedo, é individualizada, usa o brincar e envolve os pais, com acompanhamento frequente da evolução da criança.
Terapia ABA infantil em Moema
Se você tem dúvidas sobre o desenvolvimento do seu filho ou já recebeu o diagnóstico de autismo, uma avaliação pode ajudar a definir os próximos passos. Nossa equipe de psicologia trabalha com abordagens de maior evidência científica, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), a terapia cognitivo-comportamental e a orientação e o treino parental, em conjunto com fonoaudiologia e terapia ocupacional quando necessário. A Por Trás das Letras fica na Av. Iraí, 393, conj. 104, em Moema, zona sul de São Paulo, e reúne fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional, audiologia e pediatria no mesmo lugar. Conheça nosso serviço de psicologia infantil ou fale com a nossa equipe pelo telefone (11) 93044-4929.
Referências
- Reichow B, Hume K, Barton EE, Boyd BA. Early intensive behavioral intervention (EIBI) for young children with autism spectrum disorders (ASD). Cochrane Database Syst Rev. 2018;(5):CD009260. doi:10.1002/14651858.CD009260.pub3
- Eckes T, Buhlmann U, Holling HD, Möllmann A. Comprehensive ABA-based interventions in the treatment of children with autism spectrum disorder: a meta-analysis. BMC Psychiatry. 2023;23(1):1-19. Disponível em: https://doaj.org/article/1db2015098304734bd6a3921ea49a181
- Sandbank M, Bottema-Beutel K, Crowley S, Cassidy M, Dunham K, et al. Project AIM: Autism intervention meta-analysis for studies of young children. Psychol Bull. 2019. doi:10.1037/bul0000215
- Hyman SL, Levy SE, et al. Identification, evaluation, and management of children with autism spectrum disorder. Pediatrics. 2020;145(1):e20193447. doi:10.1542/peds.2019-3447