“Ele fala tasa em vez de casa“, “ela diz pato quando quer dizer prato“. Trocar letras ao falar é muito comum na infância. A pergunta que importa é outra: essas trocas ainda são esperadas para a idade do seu filho? Neste artigo, reunimos o que as pesquisas mais robustas da área mostram sobre o desenvolvimento da fala e os sinais que indicam a hora de procurar uma fonoaudióloga.
Por que as crianças trocam letras ao falar?
Para falar, a criança precisa perceber as diferenças entre os sons da língua, organizar esses sons no cérebro e coordenar lábios, língua e respiração com muita precisão. Enquanto esse sistema amadurece, ela simplifica as palavras: troca um som difícil por outro mais fácil, omite sílabas ou reduz grupos de consoantes. Na fonoaudiologia, essas simplificações se chamam processos fonológicos e fazem parte do desenvolvimento típico, desde que desapareçam na época esperada.
Com que idade cada som costuma aparecer?
Uma revisão que reuniu estudos de 27 idiomas, incluindo o português, mostrou que a maioria das consoantes é adquirida até os 5 anos (McLeod e Crowe, 2018). Sons como p, b, m, t, d, n chegam cedo. Os mais tardios em português costumam ser:
- o “r” de barata e o “r” no fim da sílaba, como em porta;
- os encontros consonantais, como prato, blusa e flor;
- os sons chiados e sibilantes em algumas palavras, como ch, j, s e z.
Por isso, uma criança de 3 anos que diz pato para prato está dentro do esperado. Já a mesma troca aos 6 ou 7 anos merece avaliação.
Quanto da fala os outros deveriam entender?
A inteligibilidade, ou seja, o quanto um adulto que não conhece a criança entende do que ela fala, é um dos melhores indicadores para os pais. Durante muito tempo se usou uma regra antiga que dizia que aos 4 anos a fala deveria ser quase 100% compreensível. Um estudo grande e recente, que acompanhou centenas de crianças com desenvolvimento típico entre 2 anos e meio e quase 10 anos, mostrou que esse ganho é mais gradual (Hustad e colaboradores, 2021). Como referência mínima, a criança deve ser:
- pelo menos 50% compreensível para pessoas de fora aos 4 anos;
- pelo menos 75% compreensível aos 5 anos;
- cerca de 90% compreensível pouco depois dos 7 anos.
Se o seu filho está abaixo dessas marcas, ou se a família entende e a escola não, vale conversar com uma fonoaudióloga.
Sinais de que é hora de procurar uma fonoaudióloga
- Aos 4 anos, pessoas de fora entendem menos da metade do que a criança fala.
- A criança tem muito mais trocas do que colegas da mesma idade.
- Depois dos 6 a 7 anos, persistem trocas como “r” por “l” ou a omissão de encontros consonantais.
- Os erros são inconsistentes: a mesma palavra sai de jeitos diferentes a cada vez, ou a fala piora em palavras e frases mais longas.
- A criança fica frustrada, evita falar ou é alvo de comentários dos colegas.
- Há otites de repetição ou dúvidas sobre a audição.
Erros inconsistentes e dificuldade crescente em palavras longas podem indicar uma questão de planejamento motor da fala, como a apraxia de fala na infância, e não só de aprendizagem dos sons. Trocas parecidas podem ter causas diferentes e pedir tratamentos diferentes, por isso a avaliação faz diferença.
Terapia fonoaudiológica funciona?
Sim. Uma revisão sistemática da Cochrane, que reuniu ensaios clínicos randomizados, encontrou efeito positivo da terapia fonoaudiológica para crianças com dificuldades nos sons da fala (Law, Garrett e Nye, 2003). Quanto mais cedo a intervenção começa, menor o risco de as trocas se fixarem e passarem para a escrita, já que a alfabetização se apoia na forma como a criança percebe e produz os sons.
Como ajudar em casa
- Não peça para a criança repetir “do jeito certo”. Devolva o modelo de forma natural: se ela disser “olha o pato”, responda “é mesmo, um prato bem grande!”.
- Fale de frente para ela, em ritmo calmo, para que veja e ouça bem os sons.
- Leia junto todos os dias, com livros de rimas e repetições.
- Valorize a comunicação, não a perfeição. A criança precisa sentir que falar vale a pena.
Se o seu filho também fala pouco para a idade, leia nosso artigo sobre sinais de TDL e atraso na fala e entenda o que faz a fono infantil.
Perguntas frequentes
Até que idade é normal a criança trocar letras na fala?
Depende do som. A maioria das consoantes é adquirida até os 5 anos, mas o “r” de barata, o “r” no fim da sílaba e os encontros consonantais, como em prato, podem se estabilizar só por volta dos 6 a 7 anos. Trocas de sons precoces, como p, b, m, t e d, depois dos 4 anos merecem avaliação.
Trocar letras na fala causa problema na escrita?
Pode causar. A alfabetização se apoia na forma como a criança percebe e produz os sons, e crianças com alterações de fala persistentes têm mais risco de dificuldade na leitura e na escrita. Por isso a avaliação antes do início da alfabetização é recomendada quando há trocas fora do esperado.
Com que idade levar a criança à fonoaudióloga por causa da fala?
Não é preciso esperar uma idade específica. Se aos 4 anos pessoas de fora entendem menos da metade do que a criança fala, se as trocas são muito mais frequentes que as dos colegas ou se a criança se frustra ao falar, a avaliação já é indicada.
Avaliação de fala infantil em Moema
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Referências
- McLeod S, Crowe K. Children’s consonant acquisition in 27 languages: a cross-linguistic review. American Journal of Speech-Language Pathology. 2018;27(4):1546-1571. doi:10.1044/2018_AJSLP-17-0100
- Hustad KC, Mahr TJ, Natzke P, Rathouz PJ. Speech development between 30 and 119 months in typical children I: intelligibility growth curves for single-word and multiword productions. Journal of Speech, Language, and Hearing Research. 2021;64(10):3707-3719. doi:10.1044/2021_JSLHR-21-00142
- Law J, Garrett Z, Nye C. Speech and language therapy interventions for children with primary speech and language delay or disorder. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2003;(3):CD004110. doi:10.1002/14651858.CD004110