Saber quando levar o filho ao psicólogo é uma das dúvidas mais comuns entre pais e mães. Toda criança passa por fases de birra, medo, choro ou irritação, e isso faz parte do desenvolvimento. O desafio é perceber quando esses comportamentos deixam de ser uma fase e começam a atrapalhar a vida da criança e da família. Neste texto, explicamos os sinais que merecem atenção, o que a ciência mostra sobre o tratamento e como funciona o primeiro passo.
Problemas emocionais em crianças são comuns?
Sim, e muito mais do que se imagina. Uma metanálise que reuniu 41 estudos de 27 países estimou que cerca de 13,4% das crianças e adolescentes têm algum transtorno mental em um dado momento, ou seja, mais de 1 em cada 8 (Polanczyk et al., 2015). Os mais frequentes são os transtornos de ansiedade (6,5%), os comportamentos opositores e disruptivos (5,7%), o TDAH (3,4%) e a depressão (2,6%).
Outro dado importante vem de uma grande revisão com 192 estudos e mais de 700 mil pessoas: cerca de 34,6% dos transtornos mentais começam antes dos 14 anos, e quase metade (48,4%) antes dos 18 (Solmi et al., 2022). Por isso a infância é a melhor janela para cuidar da saúde emocional.
Quais são os sinais de que meu filho precisa de psicólogo?
Mais do que um comportamento isolado, o que pesa é a combinação de intensidade, frequência, duração e prejuízo. Fique atento quando a criança apresenta:
- Medos ou preocupações exagerados, que a impedem de dormir sozinha, ir à escola, ficar longe dos pais ou participar de festas e atividades.
- Birras muito intensas ou frequentes depois dos 5 anos, com agressividade, quebra de objetos ou desafio constante às regras.
- Tristeza, irritação ou desânimo na maior parte dos dias, perda de interesse em brincar ou frases como “ninguém gosta de mim”.
- Mudanças bruscas de sono, apetite ou comportamento, como voltar a fazer xixi na cama depois de já ter o controle.
- Queixas físicas frequentes, como dor de barriga ou de cabeça, sem causa médica, principalmente antes da escola.
- Dificuldade importante para fazer ou manter amigos, isolamento ou timidez que limita a vida social.
- Queda no rendimento escolar associada a desatenção, agitação ou desmotivação.
- Reações intensas a eventos difíceis, como separação dos pais, mudança de escola, chegada de um irmão, bullying ou perda de alguém querido.
Uma criança pode ter um ou dois desses sinais por alguns dias e estar bem. O alerta acende quando eles se repetem, duram semanas e começam a atrapalhar a rotina, a escola ou a convivência em casa.
O que as pesquisas mostram sobre o tratamento
A boa notícia é que existem tratamentos psicológicos com forte comprovação científica para crianças. Os dois mais estudados são a terapia cognitivo-comportamental e o treino parental.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) ensina a criança, de forma lúdica, a reconhecer o que sente, entender a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos, e enfrentar aos poucos as situações que dão medo. Uma revisão Cochrane com 87 estudos e quase 6 mil participantes mostrou que, ao final do tratamento, 49,4% das crianças e adolescentes com ansiedade que fizeram TCC não tinham mais o diagnóstico principal, contra 17,8% das que ficaram na lista de espera. Na prática, a cada 3 crianças tratadas, uma a mais se recupera graças à terapia (James et al., 2020).
O treino parental (ou orientação parental estruturada) é a abordagem de primeira escolha para birras intensas, agressividade e comportamento opositor. Nele, os pais aprendem técnicas práticas para usar no dia a dia. Duas metanálises com 154 e 42 ensaios clínicos mostraram que os programas para pais reduzem os comportamentos disruptivos, com efeito maior quando o problema já está instalado. Os componentes mais ligados ao sucesso foram o reforço positivo, em especial o elogio, e o uso de consequências naturais e lógicas, sem punição física (Leijten et al., 2019).
Esses resultados mostram algo importante: quanto antes a família busca ajuda, mais simples e rápido costuma ser o caminho. Se quiser entender melhor essa linha de trabalho, leia nosso texto sobre terapia comportamental na infância.
Como funciona a primeira consulta com o psicólogo infantil?
Muitos pais ficam inseguros sobre como explicar a consulta para o filho. Em geral, o primeiro encontro é só com os responsáveis, para conhecer a história da criança, a rotina, a escola e as preocupações da família. Depois, a criança participa de sessões em que o psicólogo observa e conversa por meio de brincadeiras, desenhos e jogos, que são a linguagem natural da infância.
Ao final dessa avaliação inicial, a família recebe uma devolutiva com o que foi observado e, se houver indicação, um plano de acompanhamento com objetivos claros. Em alguns casos, a orientação aos pais já resolve boa parte da queixa. Em outros, é necessário integrar escola, pediatra ou outros profissionais.
Para explicar à criança, use palavras simples: “Vamos conhecer uma pessoa que ajuda crianças a lidar com sentimentos difíceis, e lá tem muitos brinquedos”. Evite apresentar a consulta como castigo.
Quando procurar ajuda
Procure uma avaliação com um psicólogo infantil em Moema ou na sua região quando:
- Os sinais descritos acima duram mais de 4 a 6 semanas ou estão piorando.
- O comportamento atrapalha a escola, o sono, a alimentação ou a convivência familiar.
- Birras com agressividade continuam frequentes depois dos 5 ou 6 anos.
- A criança evita situações importantes por medo, como ir à escola ou dormir sem os pais. Veja também nosso texto sobre medo infantil.
- A família passou por um evento marcante, como separação, luto ou mudança, e a criança não voltou a ser como antes em algumas semanas.
- A escola ou o pediatra sugeriram uma avaliação.
- Você sente que já tentou de tudo e está esgotado. Pedir orientação também é cuidar da criança.
Se a criança falar em morrer, em se machucar ou demonstrar sofrimento muito intenso, procure atendimento imediatamente com o pediatra, um serviço de urgência ou o CVV (188).
Na dúvida entre birra comum e algo mais sério, o texto birra ou crise emocional pode ajudar. E lembre-se: procurar um psicólogo não significa que seu filho tem um problema grave. Significa dar a ele ferramentas para crescer com mais segurança.
Perguntas frequentes
Com que idade a criança pode ir ao psicólogo?
Não existe idade mínima. Bebês e crianças pequenas podem ser acompanhados, geralmente com forte participação dos pais. A partir dos 3 ou 4 anos, a criança já participa ativamente das sessões por meio de brincadeiras. O que define a necessidade é o sofrimento ou o prejuízo na rotina, e não a idade.
Quanto tempo dura o tratamento psicológico infantil?
Depende da queixa e da criança. Programas de terapia cognitivo-comportamental para ansiedade costumam ter entre 10 e 20 sessões, e o treino parental tem duração parecida. Após a avaliação inicial, o psicólogo define objetivos claros e revisa o progresso com a família de tempos em tempos.
Os pais participam das sessões de psicologia infantil?
Sim. Na psicologia infantil baseada em evidências, os pais são parte essencial do tratamento. Eles participam da avaliação, recebem orientações práticas e aprendem estratégias para aplicar em casa. Em alguns casos, como no comportamento opositor, o trabalho com os pais é o centro da intervenção, com resultados comprovados em pesquisas.
Psicólogo infantil em Moema
Se você reconheceu alguns desses sinais no seu filho, uma avaliação psicológica ajuda a entender o que está acontecendo e a definir o melhor caminho. Nossa equipe de psicologia infantil trabalha com as abordagens de maior evidência científica, como a terapia cognitivo-comportamental e a orientação e o treino parental, sempre em parceria com a família e a escola. A Por Trás das Letras fica na Av. Iraí, 393, conj. 104, em Moema, zona sul de São Paulo, e reúne fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional, audiologia e pediatria no mesmo lugar. Conheça nosso serviço de psicologia infantil ou fale com a nossa equipe pelo telefone (11) 93044-4929.
Referências
- Polanczyk GV, Salum GA, Sugaya LS, Caye A, Rohde LA. Annual research review: A meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents. J Child Psychol Psychiatry. 2015;56(3):345-65. doi:10.1111/jcpp.12381. Disponível em: https://doi.org/10.1111/jcpp.12381
- James AC, Reardon T, Soler A, James G, Creswell C. Cognitive behavioural therapy for anxiety disorders in children and adolescents. Cochrane Database Syst Rev. 2020;11:CD013162. doi:10.1002/14651858.CD013162.pub2. Disponível em: https://doi.org/10.1002/14651858.CD013162.pub2
- Leijten P, Gardner F, Melendez-Torres GJ, van Aar J, Hutchings J, Schulz S, et al. Meta-analyses: key parenting program components for disruptive child behavior. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2019;58(2):180-90. doi:10.1016/j.jaac.2018.07.900. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jaac.2018.07.900
- Solmi M, Radua J, Olivola M, et al. Age at onset of mental disorders worldwide: large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Mol Psychiatry. 2022;27(1). doi:10.1038/s41380-021-01161-7. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41380-021-01161-7