Toda família conhece uma criança desastrada: aquela que tropeça no nada, derruba o copo na mesa, demora para aprender a andar de bicicleta e chega da escola com o caderno cheio de borrões. Muitas vezes isso é só o jeito da criança. Mas, quando a falta de coordenação atrapalha a rotina, a escola e as brincadeiras, pode ser um sinal do transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC), também conhecido como dispraxia. Entender a diferença ajuda a buscar apoio na hora certa.
O que é o transtorno do desenvolvimento da coordenação?
O TDC é uma condição do neurodesenvolvimento em que a criança tem muita dificuldade para aprender e executar movimentos coordenados, abaixo do esperado para a idade, sem que isso seja explicado por deficiência intelectual, problema de visão ou doença neurológica, como paralisia cerebral. A criança não é preguiçosa nem desatenta de propósito: o cérebro dela tem mais dificuldade para planejar e automatizar os movimentos.
O TDC afeta tanto a coordenação grossa (correr, pular, se equilibrar, pegar uma bola) quanto a coordenação fina (escrever, recortar, abotoar, usar talheres). Se a dificuldade da criança é principalmente com as mãos, vale ler também nosso texto sobre coordenação motora fina infantil.
Criança desastrada é normal? Quais são os sinais de TDC?
Todas as crianças caem e derrubam coisas, principalmente quando estão crescendo rápido. O que chama a atenção no TDC é a persistência e o impacto no dia a dia. Os sinais mais comuns são:
- Tropeça, esbarra em móveis e cai com frequência maior que a de outras crianças da mesma idade.
- Tem dificuldade para andar de bicicleta, pular corda, nadar ou jogar bola.
- Demora muito para se vestir, abotoar, amarrar o cadarço ou escovar os dentes sozinha.
- Usa garfo e faca com dificuldade e se suja muito ao comer.
- Tem letra difícil de entender, escreve devagar e se cansa ao copiar da lousa.
- Tem dificuldade para recortar, colorir dentro do contorno ou montar quebra-cabeças.
- Evita esportes e brincadeiras de movimento, ou fica de fora nas brincadeiras do recreio.
- Tem dificuldade para planejar e organizar tarefas com várias etapas.
Um histórico de atraso para sentar ou andar pode existir, mas não é obrigatório para o diagnóstico.
O que as pesquisas mostram
As recomendações internacionais sobre TDC, publicadas por um grupo de especialistas de vários países, reúnem 35 recomendações para definição, diagnóstico, avaliação, intervenção e aspectos emocionais (Blank et al., 2019). Os principais achados da literatura são:
- É frequente. O TDC atinge cerca de 5% a 6% das crianças em idade escolar, ou seja, mais ou menos uma por sala de aula, e é mais comum em meninos e em crianças que nasceram prematuras ou com baixo peso (Ong et al., 2021).
- O diagnóstico costuma ser feito a partir dos 5 anos. Antes disso, só se as dificuldades forem graves e aparecerem em vários ambientes, como casa e escola (Ong et al., 2021).
- Não é só uma fase. Cerca de 70% das crianças com TDC continuam com dificuldades na adolescência e na vida adulta, quando não recebem apoio (Ong et al., 2021).
- Afeta as emoções. Crianças com TDC relatam mais problemas de humor, autoestima e convivência, e muitas vezes deixam de participar de brincadeiras com os colegas (Blank et al., 2019; Ong et al., 2021).
- O tratamento funciona. Uma metanálise com 30 estudos encontrou efeito grande das intervenções motoras sobre o desempenho das crianças, com tamanho de efeito de 1,06 (Smits-Engelsman et al., 2018). As abordagens com melhor resultado são as orientadas à tarefa, que treinam diretamente as atividades que a criança precisa fazer, como escrever, andar de bicicleta ou se vestir. Entre elas, a abordagem CO-OP, muito usada por terapeutas ocupacionais, ensina a criança a criar suas próprias estratégias para resolver cada desafio.
Como a terapia ocupacional ajuda?
O terapeuta ocupacional avalia como a criança se movimenta, planeja e realiza as atividades do dia a dia, usando testes padronizados e informações da família e da escola. A partir disso, define metas práticas e significativas para a criança, como conseguir amarrar o tênis, escrever com mais rapidez ou participar do futebol no recreio.
As sessões combinam brincadeiras, circuitos motores, atividades com as mãos e treino direto das tarefas, sempre com orientação aos pais e sugestões de adaptação para a escola. Quando a criança também tem incômodo com sons, texturas ou movimentos, o terapeuta investiga questões de processamento sensorial, que podem aparecer junto.
Quando procurar
Procure uma avaliação de terapia ocupacional se:
- Depois dos 4 ou 5 anos, a criança continua muito mais desajeitada que os colegas da mesma idade.
- Ela não consegue realizar sozinha tarefas de autocuidado esperadas para a idade, como se vestir ou comer com talheres.
- A escrita é lenta, cansativa ou ilegível nos primeiros anos do ensino fundamental.
- Ela evita esportes e brincadeiras de movimento ou se sente excluída.
- A professora comenta sobre dificuldade motora, desorganização ou lentidão nas atividades.
- A criança tem outro diagnóstico, como TDAH, autismo ou dificuldade de aprendizagem, que costumam aparecer junto com o TDC.
Quanto mais cedo a criança recebe apoio, menor o impacto na autoestima e na vida escolar.
Perguntas frequentes
Dispraxia e TDC são a mesma coisa?
Na prática, sim. Dispraxia é o nome popular, e transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC) é o termo usado nas classificações e nas diretrizes internacionais. Ambos descrevem uma dificuldade persistente para aprender e executar movimentos coordenados, que atrapalha as atividades do dia a dia e não é explicada por outra condição.
Criança com TDC melhora com o tempo?
Sem apoio, a maioria continua com dificuldades: cerca de 70% mantêm problemas motores na adolescência. Com intervenção orientada à tarefa, como a terapia ocupacional, as crianças melhoram bastante o desempenho nas atividades treinadas e ganham confiança. O objetivo é que ela participe com autonomia da escola, das brincadeiras e da rotina.
Qual profissional diagnostica o TDC?
O diagnóstico costuma ser feito por equipe, com participação do médico, geralmente pediatra ou neuropediatra, que descarta outras causas, e do terapeuta ocupacional ou fisioterapeuta, que aplica testes motores padronizados. Informações da família e da escola também são essenciais para mostrar o impacto das dificuldades na vida da criança.
Terapia ocupacional infantil em Moema
Se o seu filho parece mais desastrado que as outras crianças e isso tem atrapalhado a escola, a autonomia ou a autoestima, uma avaliação de terapia ocupacional ajuda a entender as dificuldades e a montar um plano de intervenção baseado em evidências, com metas práticas para o dia a dia. A Por Trás das Letras fica na Av. Iraí, 393, conj. 104, em Moema, zona sul de São Paulo, e reúne fonoaudiologia, psicologia, terapia ocupacional, audiologia e pediatria no mesmo lugar. Conheça nosso serviço de terapia ocupacional infantil ou fale com a nossa equipe pelo telefone (11) 93044-4929.
Referências
- Blank R, Barnett AL, Cairney J, Green D, Kirby A, Polatajko H, et al. International clinical practice recommendations on the definition, diagnosis, assessment, intervention, and psychosocial aspects of developmental coordination disorder. Dev Med Child Neurol. 2019;61(3):242-85. doi:10.1111/dmcn.14132. Disponível em: https://doi.org/10.1111/dmcn.14132
- Smits-Engelsman B, Vinçon S, Blank R, Quadrado VH, Polatajko H, Wilson PH. Evaluating the evidence for motor-based interventions in developmental coordination disorder: a systematic review and meta-analysis. Res Dev Disabil. 2018;74:72-102. doi:10.1016/j.ridd.2018.01.002. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ridd.2018.01.002
- Ong N, Fairbairn N, Barnett D. Understanding developmental co-ordination disorder. Medicine Today. 2021;22(5):38-43. Disponível em: https://medicinetoday.com.au/mt/2021/may/regular-series/understanding-developmental-coordination-disorder